O FUTURO AEROPORTO

 

1. A indecisão

   Lembremos algumas datas registadas no Expresso de 2022-06-01:

   Em 1971, ainda no Estado Novo, a escolha foi Rio Frio, mas logo no ano seguinte foi preferido Alcochete.

   Com o Vinte e Cinco de Abril, as grandes obras praticamente pararam. Agora, o objetivo do país passou a estar fundamentalmente focado no presente, distributivo. Surgiu, contudo, a hipótese Ota para o novo aeroporto, confirmada em 1999. Assim, ante as garantias do Governo de que  solução era definitiva, foram feitos grandes investimentos no local. Até que se revelaram objeções técnicas sérias a essa localização, e apareceram outras hipóteses, nomeadamente Sintra e Tancos.

   Um estudo técnico pormenorizado e cuidadoso do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), em 2007, incluindo impacto ambiental (validade até dezembro de 2021), indicou Alcochete como a melhor opção. Ficaram célebres as exclamações do Ministro na altura, quanto a se abandonar Ota e se adotar um aeroporto na margem sul: «Jamais, jamais». Foi, porém, a solução adotada por Sócrates em 2008 (no seu consulado foi mesmo tudo mau?). Este parecer sensato do LNEC implicou muitas indemnizações aos investidores na Ota insensata…

   Não obstante tal decisão, em 2012 Alcochete é posto em causa no binómio premência-custos, e começa-se a estudar Portela mais Montijo, que parece, então, ser a solução finalmente perfeita. Contudo, desde aí, Montijo sofre várias ponderosas críticas técnicas e oposições terminantes. Nesta nova indecisão, o aeroporto da Portela (agora Humberto Delgado) foi ficando saturado.

   Ora, no dia 30 p.p., o Ministro Pedro Nuno Santos surge com a novidade de se voltar a considerar Alcochete, agora solução perfeita numa visão de futuro, depreendendo-se para ficar operacional em 2035, ou seja, daqui a 13 anos. Propõe, entretanto, como a solução imediata: Humberto Delgado mais Montijo, mas este só com uma pista.

2. Avaliação

   2.1. Política

   A celeuma sobre um hipotético autismo do Ministro nesta decisão cai por terra com o aquilo que o Expresso relata no dia seguinte: que essa solução tinha sido um cenário já discutido com o Primeiro-Ministro. Assim, o Ministro Pedro Nuno Santos, embora tenha feito o anúncio desta obra, tão importante, estando o Primeiro-Ministro ausente, não podia ser demitido sob pretexto de ter avançado com uma solução desconhecida. Teve de humilhar-se à anulação do despacho e a uma autocrítica à boa maneira marxista. As razões políticas principais para a anulação teriam sido ignorar a necessidade de previamente se informar a Presidência da República e a conveniência de politicamente se tentar um consenso com o PSD. Ou talvez o Governo esteja já a contar que o PSD também quererá Humberto Delgado mais Montijo, e, assim, Alcochete está no projeto unicamente para calar os críticos do Montijo. Aliás, o Expresso também refere que Alcochete só avançaria depois de Montijo esgotado.

   Surgem, então, várias dúvidas ao nosso espírito. Faz-se um aeroporto só com uma pista já a contar que vai ficar esgotado? Só nessa altura se inicia o projeto Alcochete para estar pronto mais de uma dezena de anos depois da saturação, ou inicia-se já, visto Montijo ser um remedeio? Neste caso, também se começam já a projetar as acessibilidades para Alcochete? Remedeio, por remedeio, não haveria outras soluções compatíveis com os atuais aviões sem ser a adaptação de Montijo?

   Parece tudo um planeamento de cenários, ainda sem ideias concretas.

   2.2. Técnica.

   Não percebo nada de aeroportos, mas levanto só as seguintes questões:

   Um aeroporto em plena cidade é uma poluição sonora e ambiental excessivamente violenta para os habitantes das proximidades.

   Há um risco de tremenda tragédia na queda de um avião na cidade, que pode até  atingir um local de eventual grande acumulação de pessoas, como um estádio repleto...

   Montijo é sempre provisório e, disse-se, com risco nos terremotos, tsunâmis ou na elevação do nível do mar com as condições climáticas.

   Ora, a fazer face no Estudo competente do LNEC, parece que a solução conveniente para o futuro é mesmo Alcochete. Repare-se que desde 1971 se tinha chegado a esta conclusão, já lá vai meio século. Repare-se, também, que, após a decisão de Sócrates, já decorreram 14 anos, o que significa que, nesta altura, Alcochete poderia já estar em pleno funcionamento...

   O custo Alcochete será muito superior ao da solução Lisboa mais Montijo, mas é preciso avaliar também a durabilidade das duas soluções e ponderar o facto de com Alcochete se estaria a trabalhar para o futuro.

3. O Futuro

   Futuro, futuro... Mas que futuro será este? Irá persistir a presente loucura de atirar para o ar milhentas toneladas em todo o mundo, numa queima brutal de poluentes para satisfazer o moderno prazer humano do turismo de massas?

   Para obviar à poluição global, pretende-se acabar em 2035 com a mobilidade rodoviária a combustível. Quer-se tudo elétrico e sem queimas, mas a era da energia barata, assim, não terá o seu fim à vista? As energias renováveis serão sempre muito limitadas no mix atual, não tenhamos ilusões; a fissão nuclear é um risco e sem soluções para os acidentes e os resíduos; a fusão nuclear é quase inócua, mas exige temperaturas de milhões, e a era de fusão-eletricidade-hidrogénio só lá para daqui a duas ou três gerações.

   Agora que o cisne-negro surgiu no gás natural, continuarão, neste intervalo, por muito tempo, as viagens de avião aos preços atuais?

   Entretanto, também, a era digital não virará tudo do avesso, e não poderemos nós, num próximo futuro, viajar sem sair de casa?...

    Não seria possível começar com um Alcochete modesto, para ir libertando Lisboa do risco?

      Ora os eleitos da vida preveem o futuro a séculos de distância. Lembremos Júlio Verne (1828-1905) com as viagens submarinas, a ida à Lua e a era do hidrogénio agora já na calha.

3  Conclusão

   Deixam saudades os excelsos governantes portugueses, como D. Dinis, antevendo o nosso futuro marítimo ao montar os alicerces para uma marinha que chegou a ser, dois séculos depois, das maiores do mundo na altura; ou como o Marquês de Pombal, insistindo em ruas estranhamente largas com o argumento de que seriam estreitas no futuro, ...e já são.

 

D ’ Silvas Filho