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Julho de 2020

 

 

O Golpe de génio dos grandes governantes

 

   O bom governante ocidental devia ter sempre presente Aristóteles e ler Confúcio, para ter o talento, ante um difícil constrangimento, de saber escolher a solução ideal, ...num golpe de génio.

 

Aristóteles (384-322 a.C.)

   Muitos dos seus conceitos ficaram para a eternidade e deviam estar sempre presentes no procedimento dos governantes. Como, por exemplo:

«Se não há justiça completa, há injustiça.»

«O que é natural é o justo meio entre o excessivo e o insuficiente.»

   Se o primeiro é intuitivo, o segundo raramente é lembrado, na caraterística peculiar do intelecto humano ante um extremismo, de tender a cair noutro.

   O princípio sábio aristotélico não é a `aurea mediocritas´ de Horácio, que no fundo invoca Buda; mas a busca permanente do equilíbrio sensato entre posições exageradas.

   No caso do combate ao covid-19 em Portugal, entre `a emergência que arrasou a economia portuguesa durante mês e meio´ e `a completa liberdade insensata como ensaiou o Reino Unido para conseguir a tal imunidade de grupo´, deveria ter havido um meio-termo aristotélico.

  No pânico de que ficasse à vista o depauperamento do SNS com a falta de investimento do ministro das Finanças, o critério dos responsáveis foi, acima de tudo, evitar que isso acontecesse.

   O pânico atingiu a sua máxima expressão com o Senhor Presidente da República na sua iniciativa de impor a opressão do `estado de emergência”.

   No contágio do pânico, toda a gente se fechou em casa (alguns mesmo em prisão domiciliária...), quase toda a atividade produtiva parou, bem como parte do consumo interno, exceto nos bens de primeira necessidade, com os seus agentes forçados a estarem em risco.

   Nos hospitais, os soldados da vida, caindo muitos no seu campo de batalha na voragem do vírus, batalhavam no estresse que lhes era imposto de manterem os serviços sem saturação. O critério estabelecido era recusar o internamento aos infetados de menor gravidade, enviando-os para casa (que infetassem a família aceitava-se, encher os hospitais é que não...).

   Quanto aos testes, que estavam a ser intensamente aplicados noutros países, o critério dos governantes em Portugal era só se fazerem quando houvesse sintomas e sic, deviam ser racionalizados. Ouvimos o Senhor Presidente dizer que “lhe tinham dito” que os testes rápidos eram perigosos... Ora a deficiência nos testes aos curadores de idosos deu origem a surtos generalizados nos lares e a uma hecatombe de mortes (40% do total). Essas palavras do atual Presidente fazem agora lembrar as palavras do anterior, que, pouco tempo antes de o BES falir, informava o povo de que “lhe tinham dito” que o BES era um banco sólido, o que apoiou o criminoso canto-do-vigário das aplicações em curso no banco.

   Nas máscaras, ouviu-se os responsáveis afirmar que seriam improfícuas; ...mas agora multam quem a não tem nos transportes públicos.

   Os nossos governantes estão sempre muito preocupados em que as instituições, incluindo o sistema e os bancos, sejam protegidas, mas esquecem que, em primeiro lugar, deveria estar a proteção do povo que teoricamente representam, protegendo-o de imprevistos.

   Está à vista o erro crasso de imprevidência dos governantes no caso dos testes e das máscaras (a República Checa como exemplo frontalmente contrário) e ainda se lembra o escândalo do Primeiro-Ministro no Parlamento quando o “Chega” disse que se se fizessem mais testes haveria revelação de mais infetados... Contudo, na opinião do autor deste artigo, o erro mais grave foi o oito e oitenta do confinamento e desconfinamento.

   A razão física que justifica uma bola saltar quando atirada ao solo é que a pancada provoca uma contração elástica que se manifesta depois na força de elevação. O confinamento ditatorial de todo o país imposto pela Presidência, quando deveria ter sido feito sistematicamente nos vários surtos surgidos (como sabiamente fez a China) e não o foi atempadamente (povoações no Norte, Ovar) deu como resultado que no desconfinamento, dito para recuperar o colapso feito na economia, haver a descompressão sentida de que o mal já estava quase ultrapassado. Admira que quem esteve isolado à força descure depois a proteção na liberdade?

   O medo na guerra é até salutar, na condição de ser sensato: pois, se é insuficiente, pode pôr inutilmente vidas em perigo; mas se é excessivo, será difícil ganhar batalhas. De facto, os ventiladores em SI e as camas disponíveis para o covid-19 estiveram longe da saturação. As medidas para a evitar poderiam talvez não ter sido assim tão extremas.

   Teria sido bom que os nossos governantes, também com o mesmo cuidado que tiveram para proteger os hospitais, tivessem ponderado como fundamental o sofrimento imenso das centenas de milhares de pessoas que ficavam em dificuldades com a paragem drástica da economia. Mesmo com as dádivas do Estado de parte do vencimento aos afetados na paragem, a redução pode ter sido dramática nalguns casos; quanto mais a falta de receitas mensais das empresas e, logo, nalgumas, a impossibilidade de pagar salários;  e, mais ainda, ter sido terrível em todos os inúmeros que viviam das receitas mensais de ocasião e tinham, como toda a gente, despesas a correr nesse tempo, sem auferirem nada.

   O Senhor Presidente comentou que, graças às medidas tomadas pelos Órgãos de Soberania, se dizia lá fora que Portugal era um milagre. Num meu artigo anterior já foi provado que, por milhão de habitantes, nunca houve milagre nenhum, pelo contrário, em relação, por exemplo à República Checa.

   Hoje, Portugal está entre os piores que lidaram com o covid-19 e com bandeira vermelha nas fronteiras entre vários países. O golpe tremendo em todo o povo que vivia do turismo clama numa reprovação.

   Com os ditos cientistas virológicos às aranhas, ante as manhas do inimigo, os matemáticos a colaborarem no pânico, ameaçando com milhões de infetados em aumento exponencial e a DGS em contradições, faltou o tal golpe de génio de estadistas aos governantes, para discernirem o rumo certo na confusão.

   Na nossa História, podemos lembrar golpes de génio de alguns estadistas:

   Em D. Dinis, sentindo a importância do mar no país e montando o futuro da marinha em Portugal.

   No arrojo do Infante de Sagres em afrontar o mar ignoto.

   Na frase de D.ª Luísa de Gusmão «Mais acertado de morrer reinando do que acabar servindo» popularizada: «Melhor ser Rainha por um dia, do que duquesa toda a vida.»

   Na antevisão do Marquês de Pombal na largura, dita exagerada para a altura, das ruas da Baixa Pombalina.

   Mais recentemente, no brado de grande coragem de Mário Soares na Fonte Luminosa, em defesa da liberdade, reagindo contra a ditadura comunista que se avizinhava.

 

Confúcio (571-479 a.C.)

   Confúcio foi um notável pensador chinês que, embora seguindo os seus conceitos nas gerações, o povo nunca converteu em Deus, contrariamente ao que fizeram outros povos com os seus eleitos da vida. Independentemente da sua nacionalidade e de qualquer referência ao regime comunista chinês que não se pretende defender, Confúcio impressiona-nos pelo surgimento, nessa civilização asiática milenar, de pensamentos que tanto admiramos nos sages da Grécia Antiga. Muitos conceitos de Confúcio são de uma impressionante perenidade, como, por exemplo:

«Consegue-se êxito em todos os nossos negócios e empresas, se planearmos tudo previamente e com muita antecedência.»

«Não corrigir falhas é o mesmo que cometer novos erros.»  

«Até que o sol brilhe, acendamos uma vela na escuridão.»

   Confúcio, nos seus pensamentos, antecipou os sempre admirados Platão, Sócrates, Heraclito e até venerados religiosos muito posteriores, mas notar o primeiro e o segundo acima, antecipando o que hoje designamos por regras do planeamento estratégico.

   Ora, os nossos governantes, na estratégia de reação contra o covid-19, poderiam ter seguido uma ação planeada progressiva de ataque ao surto e não a bomba atómica no país inteiro; e, depois, no desconfinamento, irem também mais lentamente, cuidando bem dos surtos (lembramos o descontentamento do sensato Presidente da CML). Com melhor planeamento, ter-se-ia talvez evitado que fosse tão grande o estouro na economia, o turismo não tão afetado e que se poupasse alguma da tragédia extrema que já há, e que mais haverá, em tanta gente...

   Os governantes com golpe de génio conseguem: «Planear tudo previamente, corrigindo falhas, sempre com uma vela acesa na escuridão

 

D’ Silvas Filho

CSC